Cena 11 pressiona: corpo e cidade (en)contra?

por Duto Santana
Assisti a Companhia Cena 11 pela primeira vez no Festival Internacional de Artes Cênicas de Goiânia  – Goiânia em Cena, em 2004. Na ocasião, o trabalho apresentado era SKR – Procedimento 1. Algo que se apresentava coreograficamente me chamou bastante atenção, apesar de não estar no palco propriamente dito, no Teatro Goiânia. Na medida em que, sucessivas quedas-livres do corpo se davam no palco, com os próprios bailarinos se jogando, a plateia fazia um coro sonoro com os sustos tidos diante do que viam. Ahm!…Ahm!…Ahm! … até o fim do procedimento.

27 de novembro, 2010. 6 anos depois, agora em Salvador, a mesma companhia apresenta num crescente evento, CorpoCidade, no Teatro do Movimento da Escola de Dança da UFBA. Em sua segunda edição, esse evento que nasceu em Salvador estendeu-se ao Rio de Janeiro. Unindo artistas, pesquisadores, intelectuais e interessados de diversas áreas, as propostas de performances e discussões ocorrem na pluralidade presente sobre as relações entre Corpo e Urbanidade.

Como o público é  corpo que ocupa o espaço urbano na constituição das performances do cotidiano, dessa vez, Cena 11 traz a condição coreográfica da platéia literalmente ocupando o espaço cênico e se movendo enquanto a coreografia dura. Simultaneamente, observar e realizar a coreografia foi uma convocação feita pela companhia catarinense a cerca de 30 pessoas que estavam presentes em SIM – Ações Integradas de Consentimento para Ocupação e Resistência, performance apresentada.

O espaço cênico constituía um cercado retangular, com 3 paredes e a quarta lateral fechada com barras. Entramos nesse espaço comum às cerca de oito pessoas que já ocupavam a cena, em pé, paradas e de cabeças baixas. Algo sutilmente remetia a uma posição de castigo, a qual tornávamos de observadores a vigiadores. Quando o movimento inicia-se, os performers começam a se esgueirar por entre a pessoas, chegando a pressioná-las para liberar uma passagem que vai sendo literalmente cavada através de nós, num aparente despropósito, afinal, havia muito espaço para a caminhada. Em seguida, uma vez encontrados, eles formam uma espécie de cordão humano com os braços seguramente dados, numa linha que ia de uma parede a outra e começam a marchar juntos, varrendo o espaço, logo, as pessoas que ali estavam, numa espécie de compressão populacional.

Quem diz popul-acional, diz ação do povo. Era uma ação do povo (performers) de comprimir o povo (público). Nos rearranjos dessa ação, algumas pessoas foram sentindo-se convocadas a resistir radicalmente à pressão, outros foram resistindo mas deixando-se levar pela pressão, e alguns já se esquivavam cedendo e/ou abrindo caminho. Fazer pressão na pressão. Com-pressão, passou então a ser um tipo de experiência pelo corpo, no espaço dessa co-habitação pressionada.

Corpo vivendo sob pressão, entre um e outro, transformou-se também entre o dentro e o fora desses corpos. Fluxos co-coreográficos de ex-pressão e im-pressão. Pressionando os corpos aforas, surtos de gargalhadas, também aparentemente despropositais, surgiram repentinamente de todos os cantos, vindos dos performers, que estavam espalhados entre a platéia. A sustentação temporal coletiva das gargalhadas foi evidenciando as singularidades de cada modo de gargalhar único de cada corpo. Uns mais agudos, outros mais graves, uns com som mais baixo e próximo, outros estridentes. Uma espécie de relevo sonoro do rir, que inevitavelmente im-pressionou o público a ex-pressar suas risadas, co-compondo a cena. Terminadas a risadas, os bailarinos se afileiram lateralmente uns aos outros em uma das paredes do cercado cênico e, agora, cada corpo espreme lágrimas afora. Parados, em pé, como quando entramos, os performers produzem um choro que, inicialmente parece fictício, fazendo até algumas pessoas da plateia acharem engraçado. Todavia, a reapresentação do tempo coletivamente sustentado faz crer o sofrimento. Im-pressionado, de semblante a semblante, uma coreografia de imagens do rosto da platéia foi sendo projetada em uma das paredes, com imagens de um passado performático recente dessa cena compartilhada entre público e performers, composta com imagens em tempo real.

A quase inexistência de elementos que pudessem conviver com o próprio corpo a fim de constituir narrativas, faz da performance uma espécie de ação do corpo enquanto saco de osso e músculo; coisas. E assim os já conhecidos passos de dança da companhia ganham sentido reaparecendo nessa composição, com eles se jogando no chão em quedas abruptas, às vezes um rodando o outro, como se levasse uma coisa a ser jogada, ou mesmo sendo uma coisa que joga a outra coisa.

Coisas. Coisas com aparência de Gente. ____________ E aparecendo gente nas imagens projetadas. Gente que vê coisas com aparência de Gente. Gente vendo Gente. Agente. Era agente. Éramos nós. Nós-coisas. Nossas coisas. Nossa gente. Nós, Gente!

Uma cena final: somos deixados a sós. Falas captadas dos performers, em microfones na cena, baixas e/ou distorcidas, vão sendo reapresentadas e nitidamente re-veladas.

Na minha memória, nas minhas im-pressões:

“Ela sentou-se sobre mim. Senti-me humilhada!”

“Ela não me deixa passar. O meu cotovelo está preso no tornozelo dela. Eu não quero machucá-la.”

As falas dessas coisas que se pareciam gente, numa espécie de flashback composto com imagens de uma memória recente da encenação com os semblantes expressivos das pessoas do público, ia demonstrando a capacidade que o corpo tem de velar e revelar as pesssoas; de esconder e de apresentá-las. Pude ir me dando conta de que essas coisas ali encenadas eram gente, gente que sentia, que observava, que refletia sobre o que ocorria, não só aparentes bonecos, aparentes sacos acéfalos de ossos e músculos.

A velocidade do flashback de imagens misturadas com essas falas, ao contrário da maioria da performance, iam remetendo minhas im-pressões a situações vividas, genuínas narrativas pessoais: salvamentos emergenciais de acidentes graves ou mesmo de guerra, violências sutis da convivência ou mesmo a dúvida pessoal da letargia partilhada entre nós, pessoas:

“Por que eles demoram tanto para tomar decisões?” – disse a última fala.

Experiências limítrofes; a pressão está posta. Decisões parecem precisar ser tomadas entre o corpo e a cidade. E precisa das Gentes. A gente. Agentes(!): precisam mover, precisam agir.

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Esse post foi publicado em corpocidade 2010 e marcado . Guardar link permanente.

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